Opinião
Newsletter nº2/2021

O impacto de um acordo comercial Brasil-Reino Unido: reflexão preliminar

Vera Thorstensen e Victor Vieira - EESP/FGV

 

O momento é especialmente oportuno para a aproximação comercial entre o Brasil e o Reino Unido. Este texto procura analisar, de forma sucinta, os impactos econômicos, via modelagem de equilíbrio geral computável estático, de um eventual acordo comercial entre os dois países.

Entre 2015 e 2019, a média anual das exportações brasileiras com destino ao Reino Unido totalizou US$ 2,91 bilhões. Em 2019, o valor foi de US$ 2,96 bilhões, o que representou 1,31% do total das exportações brasileiras naquele ano, posicionando o Reino Unido na 15ª colocação entre os principais destinos das exportações brasileiras (ME, 2020).

Na ótica da Classificação por Grandes Categorias Econômicas (CGCE nível 1),  48% da exportação do Brasil para o Reino Unido nos últimos cinco anos correspondeu a bens intermediários (72%), seguidos de bens de consumo (24%), bens de capital (3%) e combustíveis e lubrificantes (1%). (ME, 2020).

Já a média anual das importações brasileiras originadas no Reino Unido, entre 2015 e 2019, totalizou US$ 2,39 bilhões. Em 2019, o valor foi de US$ 2,33 bilhões, o que representou 1,03% do total das importações brasileiras naquele ano, posicionando o Reino Unido na 17ª colocação entre as principais origens das importações brasileiras. (ME, 2020).

Quando avaliada do ponto de vista da Classificação por Grandes Categorias Econômicas (CGCE nível 1), 67% das importações do Brasil originadas no Reino Unido, nos últimos cinco anos, foram de bens intermediários (48%), seguido de bens de consumo (32%), bens de capital (13%) e combustíveis e lubrificantes (7%). (ME, 2020).

Na busca por mais comércio, é intuitivo supor que um caminho seria certamente o da celebração de acordo comercial Brasil-Reino Unido. Mas que impactos poderiam ter um acordo desse tipo?

Metodologia

Um dos modos mais frequentes para se examinarem os impactos econômicos de um acordo comercial é via simulação econômica. O modelo de equilíbrio geral (EGC) utilizado neste exercício foi o Global Trade Analysis Project (doravante GTAP). O GTAP é uma rede global de pesquisadores e policy makers, que conduzem análises quantitativas de política econômica implementadas internacionalmente. Criado em 1992, o GTAP provê tanto um modelo EGC quanto uma robusta base de dados, necessários para realizar análises de impacto no curto e/ou médio prazo (modelo estático) bem como no longo prazo (modelo dinâmico). O GTAP padrão é um Modelo de Equilíbrio Geral estático-comparativo (GTAP, 2020).

O banco de dados do GTAP consiste principalmente dos dados da matriz social de cada país, e a fonte primária desses dados são as contribuições de pesquisadores de todo mundo. Neste trabalho foi utilizada a versão 10.1 do GTAP, cuja base contém informações de 65 setores (45 bens e 20 serviços), de 141 territórios (países e/ou regiões). Os territórios da base de dados representam 98% do PIB mundial e 92% da população mundial. Para cada país/região, o GTAP possui informações referentes a produção, uso de bens intermediários e finais, fluxo de comércio internacional, margens de transporte, e impostos/subsídios sobre commodities e serviços (GTAP, 2020)..

A principal fonte de dados macroeconômicos do GTAP são os Indicadores de Desenvolvimento Mundial (WDI), que contêm dados como PIB e seus agregados (consumo privado e público, formação bruta de capital fixo) e população. A fonte dos dados relacionados ao imposto de renda e aos fatores provém do Fundo Monetário Internacional (FMI). E os dados do comércio de mercadorias são baseados nas Estatísticas do Comércio de Commodities das Nações Unidas (UN-COMTRADE).

Cenários e simulação

Dois cenários de desgravação tarifária foram simulados (conservador e ambicioso), ambos tendo como base as propostas de acordo apresentadas por Mercosul e União Europeia (CIU, 2019). Apesar de não representarem as tarifas e quotas finais negociadas, permitem uma avaliação preliminar. A proposta apresentada pelo Mercosul possui 17 diferentes níveis de tarifas e/ou cotas tarifárias, enquanto a proposta apresentada pela União Europeia possui 37 diferentes tipos de tarifas finais e/ou cotas tarifárias. Em ambos os cenários, três diferentes níveis de desgravação foram aplicados, sendo que no cenário ambicioso as desgravações simuladas foram de 100%, 85% e 70%, enquanto no cenário conservador foram de 100%, 75% e 50%.

Os resultados das simulações apontaram impactos positivos em todos os indicadores macroeconômicos do Brasil.

Para o curto prazo, os resultados da simulação estática do GTAP mostraram que, tanto em um cenário conservador quanto em um cenário ambicioso, haveria impacto positivo sobre o PIB real (entre US$ 85 milhões e US$ 91 milhões), investimentos (entre  US$ 133 milhões e US$ 199 milhões), exportações (entre US$ 979 milhões e US$ 1.326 milhões) e importações (entre US$ 1.198 milhões e US$ 1.757 milhões).

Para a corrente de comércio do Brasil com o Reino Unido, seria esperado um aumento das exportações do Brasil entre US$ 1.788 milhões e US$ 2.907 milhões, e um aumento das importações entre US$ 2.651 milhões e US$ 3.386 milhões. Os aumentos mais expressivos nas exportações seriam observados nos setores Carne bovina (entre US$ 77 milhões e  US$ 183 milhões), abate de aves e suínos (entre US$ 867 milhões e US$ 1.618 milhões), metalurgia, produção e fundição (entre US$ 139 milhões e US$ 148 milhões). Por outro lado, os setores com maiores aumentos nas importações seriam: máquinas e equipamentos (entre US$ 283 milhões e US$ 338 milhões), automóveis e autopeças (entre US$ 171 milhões e US$ 276 milhões) e produtos químicos (entre US$ 138 milhões e US$ 182 mil).

Com relação à produção e os setores envolvidos, seria esperado um aumento na produção de setores relacionados à agroindústria (principalmente suínos, aves e outros animais vivos, abate de aves e suínos e carne bovina), correspondentes a um aumento das exportações para o Reino Unido. Por outro lado, seria esperado uma redução na produção de alguns setores da indústria de manufatura, principalmente máquinas e equipamentos, produtos químicos, e automóveis e autopeças, devido à redução no consumo de bens de produção nacional, que seriam substituídos por similares importados do Reino Unido.

Em síntese, os resultados são positivos. Novas simulações que utilizem modelos dinâmicos permitiriam maior aprofundamento sobre os impactos no PIB, setores exportadores e importadores. Dessa maneira, seria possível avaliar a desgravação ao longo de um período maior, além de incluir especificações de serviços e investimentos, o que certamente beneficiaria o debate. 

Uma versão mais detalhada da simulação de um acordo preferencial entre Brasil e Reino Unido pode ser encontrada no site da FGV/SP – www.ccgi.fgv.br

 

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Vera Thorstensen é coordenadora do Centro de Comércio Global da EESP/FGV

Victor Vieira é pesquisador senior do CCGI/EESP/FGV.