Opinião
Newsletter nº1/2021

Brexit e o Comércio Agrícola com o Brasil – oportunidades e desafios

Ligia Dutra, Sueme Mori e Pedro Rodrigues - Confederação Nacional da Agricultura

 

Após um longo período de negociação, no final de dezembro do ano no passado, a União Europeia(UE) e o Reino Unido finalmente fecharam um acordo sobre como será, na prática, a relação pós Brexit.

Em termos de comércio, esse acordo prevê que não serão cobradas tarifas adicionais aos bens comercializados entre Reino Unido e EU. Isso não significa que tudo continua como antes. Apesar da não aplicação de tarifas, britânicos e europeus terão que lidar com procedimentos aduaneiros que não existiam antes. O custo dessa burocracia preocupa empresários dos dois lados e, em determinados casos, pode inviabilizar a exportação do produto.

Para mitigar um possível aumento dos preços e ou problemas de abastecimento interno, o Reino Unido já declarou a intenção de ampliar o comércio com outros países, fora da União Europeia. 

Para o agro brasileiro, isso significa uma oportunidade de aumentar suas vendas para um dos maiores importadores de alimentos do mundo. Em 2019, 64% de tudo que o Reino Unido comprou em termos de produtos do agronegócio tiveram origem nos países da União Europeia.

As importações agropecuárias totais britânicas somaram US$ 106 bilhões em 2019. Do Brasil, foram somente US$ 1,4 bilhão. Esse resultado nos coloca na 16ºposição na lista de fornecedores de produtos agropecuáriose representa apenas1,3% do enorme mercado britânico.

Com o Brexit, o Reino Unido retoma sua autonomia em termos de política comercial, o que inclui a definição de tarifas de importação próprias. Em maio de 2020, o governo britânico divulgou as novas alíquotas que passaram a valer a partir de janeiro desse ano.

O novo regime britânico tarifário, UK Global Tariffs, prevê a liberalização ou simplificação das alíquotas de importação aplicadas sobre 563 produtos do agronegócio. Isso equivale aquase metade (47,3%) de tudo que o Reino Unido comprou em 2019 de produtos do agro.

 

Volume de Comércio do Agronegócio que será beneficiado com flexibilização tarifária no Reino Unido

Fonte: UN Comtrade e Departamento de Comércio Internacional – Reino Unido

 

Para o Brasil, a boa noticia é que muitos produtos em que somos competitivos terão alíquotas reduzidas. Esse é o caso das frutas, como limões tiveram reduções tarifárias de até 14 p.p., em relação às adotadas pelo bloco europeu; uvas e maçãs também foram reduzidas. Vinhos e cacau em pó foram liberalizados, e poderão ingressar no mercado britânico sem a necessidade do pagamento de um imposto de importação.Um dos setores mais beneficiados com o novo sistema tarifário é o de óleos essenciais, como o de laranja, produto para o qual o Brasil conta com marketshare de 33,4% no Reino Unido. Outros produtos tradicionais da nossa pauta exportadora, também serão beneficiados, como é o caso de suco de laranja e algodão.

Apesar das expressivas reduções tarifárias em relação às adotadas pela UE, obviamente ainda existem outros entraves ao comércio com o Brasil em relação aos competidores europeus, sendo a distância o primeiro deles. O segundo, é a capacidade portuária do Reino Unido, pois parcela significativa dos bens importados ingressa por outros portos europeus, como Roterdã.

O próprio controle de fronteiras entre o Reino Unido e a UE é um aspecto importante a ser levado em conta, pois deve impactar diretamente nos prazos para a circulação dos bens, seja para produtos que continuarão utilizando os portos da UE como primeira entrada na Europa e que posteriormente deverão passar por procedimentos de inspeção em solo britânico, ou devido ao aumento do movimento nos portos britânicos, que estarão operando em nível muito superior ao observado atualmente. Em ambas situações é possível que o exportador sofra com atrasos ou extensões de prazos.

Contudo, há um grande esforço do governo britânico na solução para tais dificuldades, visto a importância das importações de alimentos, medicamentos e produtos do setor energético para o Reino Unido.

A autonomia adquirida pelos britânicos com o Brexit deve contribuir para que os custos de transição sejam mitigados, pois possibilita a adoção de políticas comerciais menos protecionistas do que as europeias.

Aliás, esse foi um dos principais argumentos dos que defendem o Brexit. De que a independência do Bloco tornará o Reino Unido mais aberto, o que trará ganhos para a economia britânica.

Por anos, o Brasil ficou sem negociar acordos comerciais. O país tem acesso limitado aos principais mercados. Esse é um dos motivos pelo qual nossas exportações se concentram majoritariamente em produtos menos complexos, contando com as vantagens da produção em escala. Para produtos agropecuários com maior potencial de agregação de valor pelo processamento, a existência de acordos preferências é mais relevante para ganhos de competitividade.

O Brasil tem uma produção agropecuária diversa, mas a pauta exportadora é muito concentrada. No ano passado, três produtos foram responsáveis por 43% de tudo que o setor exportou. Só a soja em grãos respondeu por quase 28% do total comercializado. Felizmente somos extremamente competitivos em alguns produtos, que nos especializamos e soubemos agregar valor na produção primária para conquistar mercados. Mas, contentar-nos com isso seria pouco perto da grandeza do setor agropecuário nacional. É preciso pensar grande, ainda temos muito a conquistar no mercado internacional.

Não há nada de errado em exportar commodities. Somos líderes mundiais na venda de diversos produtos dessa natureza e queremos ampliar cada vez mais nossa participação. O que não pode ser negligenciado é a necessidade de incluir no rol de exportadores brasileiros outras cadeias, especialmente de pequenos e médios produtores rurais.

Nesse sentido, a oportunidade que se abre com o Brexit é única para o Brasil. No começo de 2020, Boris Johnson afirmou que pretende ter 80% do comércio exterior britânico coberto por acordos de livre comércio, nos próximos 3 anos. Quem chegar primeiro terá vantagens, por isso é tão importante que o Brasil não se demore.

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O link para o estudo completo encontra-se em https://www.cnabrasil.org.br/assets/arquivos/Book-Estudo-REINO-UNIDO-1.pdf