Fique de Olho
Newsletter nº3/2020

Fique de olho! Oportunidades para o setor de couros

Bruno Capuzzi, Analista de Acesso a Mercado - Apex-Brasil Europe

Luiza Olmedo, Analista de Inteligência de Mercado – Apex-Brasil

 

Você exporta para o Reino Unido? Já exporta e avalia que tem condições de exportar mais? O Brexit poderá abrir mais oportunidades para você. Fique de olho.

Esta seção da nossa newsletter tem exatamente o objetivo de destacar produtos ou setores da pauta de exportações brasileiras que poderão se beneficiar com a saída do Reino Unido da União Europeia. Queremos ajudar você a ficar de olho nas oportunidades do Brexit para quem produz no Brasil.

Nos números anteriores danewsletter, a seção Fique de olho abordou as oportunidades para as exportações brasileiras de frutas frescas e de motores elétricos no mercado britânico.Nestenúmero, serão apresentadas oportunidades para o setor brasileiro de couros. Novamente,foram mapeadas oportunidades em função de dois eixos: (i) as reduções tarifárias decorrentes da saída do Reino Unido da União Europeia; e (ii) a competitividade das exportações brasileiras vis-à-vis o mercado de importação britânico.

A NOVA TARIFA BRITÂNICA

Com a saída da União Europeia, como consta da plataforma online do Brazil Brexit Watch, um novo perfil tarifário estará em vigor no Reino Unido a partir de janeiro de 2021. São as tarifas do UK Global Tariff, a serem aplicadas àqueles parceiros com os quais o país não mantém acordos preferenciais – caso, atualmente, do Brasil. Algumas dessas novas tarifas representam somente uma conversão de moedas (de euros para libras esterlinas), sobretudo no caso de tarifas específicas. Em muitos casos, no entanto, o percentual ad valorem (%) aplicado às importações foi alterado.

Nesta análise, adotou-se metodologia que considera as reduções tarifárias ad valorem como oportunidades de exportação.Assim, os produtos (códigos SH6) que apresentaram as maiores contrações em termos de alíquotas foram cruzados com aqueles que identificamos no Mapa de Oportunidades da Apex-Brasil para o Reino Unido. Todas as categorias de oportunidade do nosso Mapa foram incluídas (abertura, consolidação, manutenção e recuperação), pois, de maneira geral, indicam os produtos brasileiros que são competitivos e, portanto, teriam oportunidades no mercado, mesmo que ainda não exploradas.

É importante observar que as oportunidades para gêneros agrícolas, produtos nos quais o Brasil apresenta forte competitividade, não são destaque nesta análise. Isso se explica pelo fato de que a maioria das tarifas desse setor, que são específicas, foram, na UK Global Tariff, apenas convertidas de euros para libras esterlinas.

PRODUTOS DE COUROS

O setor brasileiro de couros (capítulo 41 do Sistema Harmonizado), como um todo, exportou cerca de US$ 1,1bilhão em 2019 e US$ 516 milhões entre janeiro e julho de 2020[1]. Destes montantes, menos de 1% foi destinado ao Reino Unido, que por sua vezregistrou importações totais de couros de cerca deUS$ 169 milhões, em 2019, e US$ 51 milhões,até julho de 2020. Com a saída do Reino Unido da União Europeia, a metodologia empregada na presente análise identificou oportunidades mercadológicas em 4 subposições (SH 6). São elas i) SH6 4101.41; ii) 4107.12; iii) 4107.92; e iv) 4107.99.

Essas 4 subposições (SH 6) contêm 12 linhas tarifárias (subclassificações utilizadas pelo Reino Unido, conhecidas como CN8) com impostos de importação entre 5,5% e 6,5%, que serão zeradas a partir de 2021. É nessas classificações que se identificaram, no alcance da presente análise, oportunidades para os produtos brasileiros. Nelas, podem emergir vantagens para o Brasil, especialmente frente aos competidores europeus, que já se beneficiavam da isenção tarifária e são representativos no mercado britânico. As informações específicas de cada produto serão apresentadas de acordo com cada subposição, em ordem crescente, conforme o código de classificação tarifária.

SH6 4104.41 - Couros e peles depilados, curtidos ou secos (crust)

De acordo com dados da plataforma Trade Map, o Reino Unido importou US$ 1,18 milhão em couros dessa posição em 2019. Após Bangladesh, o Brasil foi o segundo principal fornecedor do produto no período, com 15% do total importado, ou US$ 173 mil. O preço médio do produto brasileiro (US$ 14,41/kg) é competitivo frente aos principais fornecedores desse mercado:Bangladesh (US$ 18,54/Kg), que detém 60% do mercado; Índia (US$ 28,20/Kg), que detém 12% do mercado; e Colômbia (US$ 23,50/Kg), que detém 4% do mercado.

Já em 2020 (janeiro-julho), o Brasil foi líder nesse mercado,exportando cerca de 42% (US$ 136 mil) do total importado pelo Reino Unido. Com um preço médio de US$ 14,14/Kg, o produto brasileiro foi mais competitivo do que o de Bangladesh (US$ 17,23/Kg), que ocupou 35% do mercado, o da Itália (US$ 51,55/Kg), com 5% do mercado, e o do Canadá (US$ 59,83/Kg) e da Colômbia (US$ 21,07/Kg),com 4% do mercado cada.

A Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) subdivide esses produtos em 4 classificações tarifárias, das quais 3 registram exportaçãopara o Reino Unidonos períodos em apreço. A exceção dá-se na NCM genérica da subposição que abrange os couros de equinos, a NCM 4104.41.90.

A principal NCM dessa subposição é a 4104.41.10, para peças de superfície unitária de até 2,6m², na qual o Reino Unido importou (nas suas classificações fiscais CN8 4104.41.11 e CN8 4104.41.19) US$ 883 mil em 2019. Cerca de 20% dessas importações originaram-se do Brasil, US$ 173 mil. Entre janeiro e julho de 2020, a participação brasileira (US$ 135 mil) representou 55% do total importado pelo Reino Unido, US$ 246 mil[2].

As demais NCMs dessa subposição não têm correlação direta com classificações britânicas (CN8), e, excluída aquela destinada a couro de equídeos (não exportada para o Reino Unido), serão analisadas em conjunto. São as NCM 4104.41.20 (couros curtidos) e NCM 4104.41.30 (couros secos), que representam, na classificação britânica, os códigos CN8 4104.41.51 e CN8 4104.41.59. Nesses produtos, o Reino Unido importou US$ 278milem 2019 e US$ 62 milentre janeiro e julho de 2020. O Brasil não registou vendas nessas classificações em 2019, exportando, contudo, US$ 1 mil em 2020 (até julho), ou 1,6% do total importando pelo Reino Unido no período.[3]

 

SH6 4107.12 - Couros e peles inteiros, preparados, depilados e divididos com o lado flor

O Brasil exportou, em 2019, US$ 553,9 milhões em produtos da subposição 4107.12. Desse total, 29,3% foram direcionados à União Europeia e 0,1%, ao Reino Unido. Já os britânicos importaram um total de US$37,8 milhões desses produtos no mesmo período.Em 2020, entre janeiro e julho, houve uma queda de 39% das importações totais britânicas desse código, em comparação com o mesmo período do ano passado. No caso das importações provenientes do Brasil, a contração foi de 63%.

É relevante salientar, contudo, que, embora participação brasileira seja atualmente baixa no mercado britânico, em 2015 o Brasil foi o 4º maior fornecedor dessesprodutos para o Reino Unido, representando 7% (US$ 4,55 milhões) das importações. Já em 2019, o principal fornecedor do Reino Unido de produtos da subposição 4107.12 foi a Alemanha, que dominou 38,8% do mercado. A Itália ficou em segundo lugar, respondendo por 35% das importações britânicas.

Nesse contexto, chama atenção a competitividade dos produtos brasileiros, que, em 2019, chegaram ao mercado britânico com uma média de preços de US$ 18,2/Kg. Esse valor está bem abaixo da média do produto alemão (US$ 38/Kg) e italiano (US$ 34,3/Kg).

Apenas quatro países apresentaram um preço médio mais atraente do que o brasileiro: México (7º maior fornecedor), Argentina (3º maior fornecedor), Lituânia e Hungria, cujos preços médios variaram entre US$ 7,7/Kg e US$ 13,5/Kg.

SH6 4107.92–Cortes de couros preparados, depilados e divididos com o lado flor

Em 2019, oReino Unido registrou US$ 31,8 milhões em importações na subposição 4107.92, sendo o mercado majoritariamente dominado pela Itália (83%), com importações ao preço médio de US$ 12,66/Kg. Com cerca de 1,7%, e 5ª posição do mercado importador nesse ano, o valor médio do produto brasileiro (US$ 17,57/Kg)foi mais competitivo do que o das exportações dos Estados Unidos (US$ 103/Kg),país que ocupou a segunda maior fatia no mercado, 4%, e Portugal, que deteve3% do mercado e um valor médio de exportação US$ 22.26/Kg. À frente do Brasil, a Tailândia (3% do mercado) registrou preços particularmente competitivos, na média de US$ 5,63/Kg[4].

Entre janeiro e julho de 2020, o mercado de importação britânico nessa subposição (US$ 10,5 milhões) manteve-se dominado pela Itália (84%), seguida dos Estados Unidos (5%) e de Portugal (4%). Nesse período, a participação de mercado do produto brasileiro quase dobroucom relação ao ano anterior, passando a 3%.O valor médio das exportações brasileiras observou uma redução para US$ 11,38/kg, mantendo-se mais competitivo do que os principais fornecedores já citados.

Essa subposição de couros preparados tem duas NCMs (Nomenclatura Comum do Mercosul) em uso no Brasil, a NCM 4107.92.10, para couros de bovinos; e a NCM 4107.92.90, para outros tipos de couros,em que costumeiramente se classificam os produtos equinos. A exportação brasileira é majoritariamente concentrada nos produtos de origem bovina, no que diz respeito tanto às vendas totais quanto àquelas destinadas ao Reino Unido.

SH6 4107.99 - Outros couros e peles, incluídas as ilhargas, preparados após curtimenta ou secagem

Em 2019, o Brasil exportou para o Reino Unido US$ 200 mil na subposição 4107.99, o que correspondeu a uma fatia de mercado de 1,8%. Esse valor posicionou o país como o 7º maior fornecedor britânico. Em 2020, contudo, entre janeiro e julho, houve queda de 44% das importações totais britânicas desse código, em comparação com o mesmo período do ano passado. No caso das importações provenientes do Brasil, a contração foi de mais de 57%[5].

Note-se, porém, que, emboraa recente participação brasileira nas importações britânicas desses produtos seja relativamente baixa, em 2010 o Brasil foi o 2º maior fornecedor do SH6 4107.99 Reino Unido, com US$ 1,6 milhões exportados. Em 2019, a Itália e a Espanha foram os principais fornecedoresdo mercado britânico,com 63% e 17%, respectivamente, das importações nessa subposição.

Nesse contexto, salta aos olhos a competitividade dos produtos brasileiros, que, em 2019, chegaram ao mercado britânico com uma média de preços de US$ 18,2/Kg, abaixo da média do produto italiano (US$ 26,5/Kg) e do espanhol (US$ 29,2/Kg). Apenas a Colômbia apresentou preços médios mais atraentes do que o brasileiro, de US$ 15,7/Kg.

Sustentabilidade no setor de couros

Quanto à questão da sustentabilidade no comércio internacional de produtos de couro, deve-se ressaltar que tem lugar central nos critérios dos consumidores e importadores britânicos.

Destaca-se a importância cada vez maior dos selos de boas práticas ambientais para a inserção competitiva dos produtos de couro brasileiro em determinados mercados, o do Reino Unido entre eles. Além das opções de certificações privadas estrangeiras, como a do LeatherWorkingGroup (LWG), existe atualmente uma iniciativa nacional, que é reconhecida internacionalmente: o Certificado Brasileiro de Sustentabilidade do Couro (CSCB).

O CSCB busca garantir o uso de processos sustentáveis na cadeia produtiva do couro brasileiro. Para conceder a certificação, aplica-se à indústria curtidora o tripé do conceito de sustentabilidade: resultados econômicos, ambientais e sociais. A certificação foi construída pela cadeia que integra a indústria de couros do país e é apoiada pelo projeto BrazilianLeather– uma iniciativa do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) e da Apex-Brasil para incentivo à participação do couro do país no mercado externo.

Por meio de um acordo firmado entre CSCB e ICEC (o Instituto Italiano de Certificação de Qualidade para o Setor de Couros), garantiu-se o reconhecimento mútuo das certificações. Essa parceria contribui para a maior promoção dos curtumes certificados no cenário internacional, especialmente no que diz respeito ao mercado europeu.

 

SAIBA MAIS!

A Gerência de Inteligência de Mercado da Apex-Brasil disponibiliza uma série de painéis para auxiliar o exportador a identificar as melhores oportunidades para seus produtos. No Mapa de Oportunidades para as Exportações Brasileiras,você encontrará dados de comércio detalhados por SH6 e classificações de oportunidades identificadas em centenas de mercados para o seu produto. Questionamentos podem ser direcionados ao e-mail gim@apexbrasil.com.br.

Para informações sobre mercados específicos, a Apex-Brasil conta com uma rede internacional de escritórios que prestam apoio às empresas exportadoras brasileiras mediante soluções como inteligência de mercado, promoção de negócios e apoio à instalação local. Atendimentos e informações específicas podem ser requisitadas ao Escritório Europa pelo e-mail europe@apexbrasil.com.br.

A Embaixada do Brasil em Londres também auxilia empresas já exportadoras e aquelas que almejam iniciar exportação ao mercado britânico. Comunique-se com a Embaixada pelo e-mail secom.london@itamaraty.gov.br.

 

[1]Para harmonização dos dados, para 2020 foi utilizado o período entre janeiro e julho, que é o período mais recente disponível na plataforma TradeMap para os dados britânicos.

[2]TradeMap

[3]TradeMap

[4]TradeMap

[5]TradeMap