Fique de Olho
Newsletter nº1/2020

Frutas frescas

Redação: Secom da Embaixada no Reino Unido

Você exporta para o Reino Unido? Já exporta e avalia que tem condições de exportar mais? O Brexit poderá abrir oportunidades para você. Fique de olho.

Esta seção da nossa Newsletter tem exatamente o objetivo de destacar produtos ou setores da pauta de exportações brasileiras que poderão ser beneficiados com a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Queremos ajudar você a ficar de olho nas consequências do Brexit para quem produz no Brasil. 

Neste número 1, nossa atenção vai para as frutas frescas. O Brasil já fornece diversos produtos agropecuários para o mercado britânico, entre os quais, além das frutas, estão ração animal, açúcar, carne bovina e carne de frango, entre tantos outros. E certamente nossas exportações desse setor podem crescer ainda mais. O mercado britânico é grande importador de alimentos e bebidas (importa metade do que consome), e o produto brasileiro tem, reconhecidamente, qualidade e preço competitivos. Com o Brexit, os espaços de marcado poderão ser ainda maiores para nós. Ninguém tem ainda informações conclusivas sobre o processo de saída do Reino Unido da UE, mas, com base no que já se sabe, podemos explorar possibilidades.

Vamos às frutas. O desempenho das exportações totais brasileiras de frutas (incluindo nozes e castanhas) vem melhorando consistentemente, em volume e valor, principalmente a partir de 2014. Segundo dados do MAPA, com exceção de 2016, quando houve queda de -4%  em valor (compensado por aumento de 11% no ano seguinte), os demais anos foram francamente positivos. Entre 2018 e 2019, o crescimento em valor foi de 3,8%, e foi ultrapassado o montante de US$ 1 bilhão. Em 2019, as frutas frescas apresentaram a maior participação no total de nossas exportações para o Reino Unido, com US$ 78 milhões (ou 77%), seguidas de nozes e castanhas, com US$ 160 milhões (16%), e, por último, conservas e preparações de frutas (excluindo sucos), com US$ 71 milhões (7%). As principais frutas exportadas pelo Brasil para o Reino Unido, hoje, são melões, uvas, limões, melancias, mangas, mamões, bananas e laranjas.

A competitividade da fruta brasileira, pelo que embute de avanço técnico, já é alta e vem aumentando – como ocorre em tantos outros segmentos. Tomemos o exemplo da manga. Segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), o Vale do São Francisco, principal polo frutícola do País, é responsável por 90% da manga brasileira exportada, principalmente das variedades Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt. De janeiro a setembro de 2018, as exportações totais de manga somaram US$ 93,4 milhões, e dos 93 mil hectares plantados em 2017 no Vale, 36 mil hectares produziram manga. Tal desempenho não seria possível sem soluções como o tratamento hidrotérmico, processo que mata ovos ou larvas da mosca-das-frutas, e que consiste em mergulhar frutas de até 425 gramas em água aquecida a 46ºC por 75 minutos e frutas entre 426g e 650g, por 90 minutos – sem uso de produtos químicos. O sucesso da solução, adaptada de outros países às características da produção brasileira, levou a um novo modelo brasileiro de certificado fitossanitário, e abriu à fruticultura nacional os mercados de Coreia do Sul, Japão, Chile, Argentina, EUA, União Europeia e, mais recentemente, África do Sul. O potencial do produto brasileiro é indiscutível – e o Reino Unido poderá mostrar ainda mais apetite para ele. 

MERCADO EXIGENTE

Se olharmos para o Reino Unido hoje, veremos um mercado exigente no setor de frutas frescas (e não apenas). Os diferentes elos da cadeia de suprimentos, incluindo importadores, processadores  e varejistas, demandam, em resposta às preferências do consumidor, o estrito cumprimento de requisitos de segurança dos alimentos, e padrões e certificações de qualidade, sustentabilidade e comércio ético. Essas são condições prévias para a entrada no mercado local – embora não sejam, por si sós, garantia de sucesso. Daí a importância de soluções como as que encontramos para nossa manga, para ficar no mesmo exemplo. São soluções que contam, e muito, para o mercado britânico. Por isso, é fundamental não apenas continuarmos a perseguir soluções assim, mas também dar a elas a maior visibilidade possível. São de interesse direto do exportador todas as ações que promovam a imagem de sustentabilidade ambiental e social da agropecuária no Brasil.

Não basta que o produto seja bom e barato – é preciso que seja sustentável, como é o produto brasileiro. Mas também não basta que seja sustentável – é preciso que os consumidores aqui saibam que assim é. Nisso a Embaixada do Brasil em Londres tem trabalhado muito, e continuará a trabalhar. E o produtor pode igualmente seguir fazendo a sua parte nesse esforço de divulgação legítimo e necessário.

Importadores, processadores  e varejistas exigem a implementação de sistema de  gerenciamento de segurança de alimentos com base na análise de perigos e pontos críticos de controle (HACCP). Além disso, é importante para o exportador brasileiro buscar conhecer esquemas de certificação privados como GLOBALG.A.P. e as normas globais do British Retail Consortium (BRC), amplamente aplicadas como padrão de higiene e segurança, e comumente solicitados nas importações de produtos frescos. Os compradores locais costumam valorizar certificações de conformidade social e ambiental. As  iniciativas e requisitos relacionados à  responsabilidade social corporativa (RSE) podem variar, e exemplos incluem: Iniciativa de Comércio Sustentável do IDH, por meio do programa Fresh &  Ingredients, Business Social Compliance Initiative  (BSCI), Global Social Compliance Program (GSCP), Sedex (organização sem fins lucrativos para avaliar e gerenciar o desempenho em direitos trabalhistas, saúde e segurança, meio ambiente e ética nos negócios), e a Ethical Trading Initiative (ETI). Exemplos de rótulos sociais ou sustentáveis para frutas e verduras frescos incluem: GRASP, Fair for Life, Fairtrade e Rainforest Alliance/UTZ. Tudo isso pode ser decisivo.

E O BREXIT?

Mas, e o Brexit, onde entra?

A depender do resultado das negociações em curso sobre o relacionamento futuro entre o Reino Unido e a UE (essas negociações devem ser concluídas, em princípio, até o fim deste ano), países do bloco europeu não mais terão, ou verão reduzidas, as preferências de acesso ao mercado britânico de que hoje se beneficiam, inclusive em termos de tarifas. Aí, os exportadores brasileiros se verão em posição de maior vantagem relativa em relação aos concorrentes europeus. 

Conforme dados da IBISWorld, em 2018-19, as importações de frutas abasteceram 87,3% da demanda interna do Reino Unido, totalizando US$ 5 bilhões – e revelando um mercado extremamente dependente das importações. O principal fornecedor é a Espanha (15%), seguida por África do Sul (11,7%), Peru (7,8%) e Brasil (7,4%) – o Brasil exporta sobretudo frutas tropicais. A Espanha – membro da UE – tem a seu favor a proximidade geográfica com o Reino Unido, além de clima adequado para a produção agrícola. Essas são vantagens que, claro, permanecerão após o Brexit. Mas, na linha do que comentamos, uma piora nas condições de acesso da Espanha ao mercado britânico – e isso, sim, o Brexit poderá trazer, com novidades em matéria de tarifas e outras barreiras – elevará os preços finais do produto espanhol no Reino Unido. Neste ponto haveria oportunidade para o Brasil.

O Brexit também tenderá a impactar a oferta local do setor de frutas e verduras. Espera-se que haja, em algum momento, mudanças na política de subsídios aos agricultores, atualmente fornecidos no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC) da UE. Em 2016, o governo britânico comprometeu-se com pagamentos nos níveis atuais (isto é, em conformidade com a PAC europeia) até 2022. Não há ainda clareza sobre o que ocorrerá após esse período. Mas se supõe que os níveis de subsídios tenderão a reduzir-se – hoje, para que se tenha uma ideia, os subsídios da PAC chegam a representar 80% da renda dos agricultores locais. Ora, menores subsídios teriam impacto negativo sobre a competitividade dos produtos locais, o que abre nova oportunidade para fornecedores externos. Pensando no Brasil, se é verdade que a quase totalidade das frutas frescas exportadas por nós não encontram equivalente britânico, é também verdade que pode haver gradativa substituição de escolhas por parte do consumidor.

Outro fator de impacto do Brexit na produção local se dará, possivelmente, com  o fim da livre circulação de pessoas, que poderá restringir a oferta de mão-de-obra. Atualmente, 90%  dos produtos frescos produzidos no Reino Unido são colhidos e embalados por cerca de 70 mil trabalhadores estrangeiros, sobretudo do Leste europeu. O setor tem investido no desenvolvimento de novas tecnologias e na automação, a fim de reduzir a dependência da mão-de-obra. Do mesmo modo, busca junto ao governo meios para garantir a manutenção de algum grau de acesso à mão-de-obra estrangeira. Mas se trata de fator que também cabe ter em conta.

O FUTURO

As oportunidades, portanto, existem. Mas, como todos sabem, não são automáticas. Exigirão esforços renovados de nossa parte. O mercado britânico, reiteramos, é exigente, e o Brasil precisa seguir investindo na projeção da imagem de sua agropecuária, a partir de nossa realidade de modernidade e sustentabilidade. Os produtos agrícolas, não custa insistir, devem sempre atender, e com clareza, aos requisitos dos compradores locais no que tange a segurança alimentar, qualidade econformidade social e ambiental.

Os exportadores que adotarem padrões de qualidade adicionais ou de nicho de mercado, como frutas e vegetais orgânicos ou "fairtrade", poderão destacar-se ainda mais. Certificados reconhecidos internacionalmente, como garantia de determinados processos produtivos ou da qualidade do produto final, são também muito importantes. Localmente, pode-se buscar, por meio de campanhas e ações concertadas de divulgação, melhorar a visibilidade e estimular a demanda em múltiplos setores e, com certeza, no de frutas tropicais.

No que tange a aspectos de logística, entidades como a própria Abrafrutas reconhecem dificuldades em exportar produtos considerados mais "frágeis", como é o caso do mamão. Para salvaguardar a qualidade e o amadurecimento adequados no destino, tais produtos, idealmente, deveriam ser exportados por via aérea. Não obstante, os importadores britânicos parecem preferir o transporte marítimo, com custo mais baixo, o que prejudicaria a qualidade e, por consequência, a imagem do produto final junto ao consumidor. Para contornar o  problema, os exportadores brasileiros têm procurado negociar contratos com importadores britânicos condicionando a exportação ao transporte aéreo. Essa pode ser uma opção.

São variados os caminhos a serem seguidos. O Reino Unido abre-se mais ao mundo e, lembremos, importa metade do que consome em alimentos e bebidas. O Brasil é fornecedor seguro desses produtos – frutas frescas inclusive. As condições estão dadas. Temos é de ficar de olho.*